Diário, Vida na Irlanda

Au Pair na Irlanda

A Taís fez um post sobre Au Pair na Irlanda algumas semanas atrás, e lembrei que eu queria escrever sobre isso por aqui também e contar um pouco da minha experiência, senta que lá vem textão:

Bom, eu nunca fui muito próximo de crianças, pois toda minha família é um pouco mais velha, então nunca tive primos pequenos ou algo assim… eu achava que não seria boa sendo au pair, mas mesmo assim, a ideia de trabalhar com isso me agradava por diversos motivos: melhorar meu inglês, ter convívio com nativos e claro ganhar em euro e não ter gasto com aluguel, contas e mercado.

Nos meus primeiros 6 meses na Irlanda eu alugava um quarto só pra mim em uma casa há cerca de 30 minutos do centro de Dublin. Nessa época eu cheguei a fazer alguns panfletos pra ver se conseguia alguns jobs de babysitter pela área, pra ir ganhando experiência. Nessa época também eu já me inscrevia em alguns sites de au pair, mas devido ao fato de estudar a tarde era bem difícil conseguir algo. Ainda assim, eu trabalhei esporadicamente pra duas famílias: em uma delas eu fazia mais a limpeza da casa, o que era bem fácil, já que eles eram super organizados, e de vez em quando eles me chamavam pra cuidar das duas crianças, as vezes de manhã e as vezes a noite, e a segunda família era mais comum durante a noite. Fazer babysitting é moleza, pois geralmente você chega na casa e os pais já colocaram as crianças pra dormir, então basicamente era só ficar de olho.

Quando as minhas aulas estavam pra acabar, eu comecei a procurar melhor, anunciando que eu estaria disponível pra trabalhar full time, foi aí que achei minha primeira família. Mas antes de começar a contar essa parte, quero deixar algumas coisas claras:

O programa de au pair não é regularizado na Irlanda, eles não tem esse programa como em outros países, por exemplo. É por isso que é meio que uma bagunça e cada família faz o que quer ou acredita ser o certo. Na realidade, as au pairs hoje em dia são caracterizadas como “domestic workers” e tem direito ao salário por hora, no qual é descontado um certo valor semanal, pelo aluguel, contas e comida.

Nessa família, eu cuidava de 3 crianças. A M., de 2 anos, a J., de 5 e o R., de 8. Eu lembro que quando fiz a entrevista eles disseram que eu trabalharia uma certa quantidade de horas por semana, e foi assim no começo, mas com o passar do tempo eu estava trabalhando bem mais pelo mesmo salário. A minha rotina era ficar com a bebê de manhã, e depois buscar os outros na escola e eu ficava com os três o resto do dia. Era bem puxado, principalmente por causa da bebê, mas eu sinto muita falta dela, pois eu me apeguei demais. A família em si era muito legal, eu tive ótimos momentos com eles, apesar de serem bem exigentes também. Hoje em dia eu tenho ~mixed feelings about it~ pois sei que eles não estavam completamente certos, mas também me ajudaram muito em tudo que precisei e me ensinaram muita coisa e até hoje tenho contato com as crianças e com a família. Eu acho que naquela época as coisas em relação as au pairs ainda não estavam tão esclarecidas por aqui e nem pra mim, na verdade. Eu fiquei 9 meses na casa, e sinceramente só saí pois precisava voltar a estudar, e trabalhando lá não seria possível.

aupair

Meus irlandesinhos favoritos

Foi aí que eu achei minha segunda família, ou melhor, eles acharam meu perfil e entraram em contato. Eu fiz a entrevista e no mesmo dia a mãe me disse que a vaga era minha, que eles tinham gostado muito de mim. Acontece que nessa mesma época eu consegui a extensão do meu visto e decidi ficar na antiga família, foi quando a atual disse que esperaria o tempo que fosse necessário. Eu lembro que fiz a entrevista em abril de 2016 e só me mudei em agosto do mesmo ano! Nessa família as crianças são um pouco mais velhas, mas também são 3: o F., de 8 anos, a E., de 10 e o C., de 12. Como os três já estão na escola, eu só trabalho na parte da tarde: busco eles, faço o lanche, ajudo na lição de casa, dou uma geral na casa, faço janta e deixo eles prontos pras atividades que fazem depois da aula. A rotina não é tão puxada pois eles são mais independentes, apesar de as vezes me deixarem meio doida, como toda criança. As minhas horas hoje em dia são pagas certinhos, além de eu ser registrada e ter tudo regulamentado. Eu já estou nessa casa há 9 meses, e se for comparar as famílias, as duas são completamente diferentes e as duas me ensinaram muitas coisas de jeitos diferentes.

Eu acho que ser au pair não é pra qualquer um, não, ainda mais se você mora com a família. Além de ter paciência com crianças, é meio que sua casa também, então fica aquela sensação de nunca saber até que ponto é trabalho ou não. Eu acho que tive muita sorte sim, mas também muito jogo de cintura pra passar por algumas situações. Eu sou uma pessoa bem tranquila e acredito que ter um perfil mais tranquilo e compreensivo é essencial, pra saber lidar com as adversidades, diferentes opiniões, além das questões culturais, etc.

Eu tenho muitas amigas au pairs e também já ouvi histórias felizes como as minhas, mas também tristes, porém acredito que a situação vem melhorando pra nós. Era muito comum ver vagas exploradoras por aí, mas hoje em dia é bem raro, o que não significa que não devemos parar de ter cuidado ao procurar um trabalho como esse. Eu deixei muita coisa de fora desse post porque né, impossível resumir a experiência de um ano e meio em alguns parágrafos, mas também porque ficaria horas escrevendo aqui mas tentei resumir da melhor forma possível. Minha dica é: pesquise bastante sobre seus direitos, vá a quantas entrevistas forem necessárias porque tem muita família boa sim, então não se desespere porque vai ter uma perfeita pra você. E saiba ter paciência para lidar com as adversidades, pois somos todos humanos e todos temos nossos dias bons e ruins, e lidar com pessoas não é fácil mesmo, acho que eu aprendi a não levar tudo a ferro e fogo, principalmente críticas. As famílias precisam de você tanto quanto você deles, então essa experiência será sempre uma troca  para ambos os lados.

Em um geral eu curti (e ainda curto) muito, mas sinto que meu tempo como au pair já está dando o que tinha que dar, afinal já são quase um ano e meio trabalhando com isso e a vontade de fazer e viver outras coisas vem crescendo. Esses trabalhos pagaram meus vistos, minhas viagens e uma vida confortável aqui e tantas outras coisas que aprendi que não tem e nunca terão preço, ambas as famílias foram realmente famílias pra mim, fazendo de tudo pra me sentir a vontade, comemorando aniversários, recebendo meus familiares, escutando e aconselhando meus dramas e problemas e eu nunca esquecerei disso.

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